#Opinião: O reposicionamento das ofertas educacionais a partir do Covid-19

A pandemia causada pelo Covid-19 vem gerando desde o ano passado uma série de impactos. Assim como alavancou rapidamente alguns setores e jogou no ostracismo outros, a situação de calamidade global também levou as pessoas a experimentarem novas soluções para suas questões do dia a dia. Da mesma forma, empresas tiveram que adaptar as suas ofertas para o novo contexto. As mudanças de comportamento, pelo lado de quem compra, associadas às alterações nas ofertas, promovidas por quem vende, podem gerar algumas novas perspectivas de posicionamento de marketing. E o mercado de educação superior é um dos setores que claramente poderá sentir tais efeitos.

Anteriormente à pandemia, este setor estava dividido em duas categorias básicas de oferta: o ensino presencial e o ensino a distância. O primeiro trabalhando a partir de uma estrutura tradicional de atividades e propostas de ensino, com características síncronas. O segundo, por sua vez, apostando em plataformas digitais para oferecer conteúdo e atividades de maneira assíncrona. A primeira oferta gerava muita interação, diferentes possibilidades a serem trabalhadas presencialmente, porém estava engessada em sua própria natureza e dinâmica tradicional. Além disso, existe uma questão específica de contexto do público-alvo: para a realidade esmagadora do ensino superior brasileiro, o cenário é de alunos que trabalham durante o dia e estudam à noite, enfrentando o trânsito, cansaço, estresse e rendendo pouco em sala de aula.

A oferta a distância apresentava modelos mais básicos de aprendizagem, porém com uma flexibilidade muito maior: assista às aulas na hora em que quiser, no espaço que quiser e gerencie o seu próprio processo educacional. A contrapartida para isso era uma experiência educacional pobre, baixíssima interação e conteúdos de qualidade duvidosa (os famosos “conteúdos apostilados”).

Cada proposta trazia suas vantagens e desvantagens, mas seus momentos mercadológicos são distintos. A oferta tradicional, já consolidada, tem baixa expansão nos principais mercados e fortes indícios de retração. A oferta EAD, por sua vez, apresenta taxas de crescimento consideráveis, passando de 15% ao ano entre 2017 e 2019 (o que não é necessariamente sinal de sucesso, mas sim da consolidação de um mercado).

O ano de 2020 começou e logo veio a pandemia. Com isso, todas as instituições de ensino superior precisaram se adaptar. A solução geral foi o ensino remoto, usando plataformas de transmissão ao vivo para oferecer o ensino a distância, porém de forma síncrona. Na opinião de muitos, o formato híbrido (resultado direto do período de quarentena) uniu o melhor das duas ofertas que até então predominavam no mercado: juntou o ensino síncrono e suas possibilidades de interação com todos os recursos das plataformas digitais (tanto síncronas quanto assíncronas) e ainda viabiliza para o estudante o consumo das aulas fora do horário tradicional, já que existe a possibilidade dos encontros virtuais ficarem gravados.

Com isso, ao longo deste ano é bem provável que testemunhemos o aparecimento de novos posicionamentos em ofertas educacionais, ensaios gerados a partir desta experiência híbrida. Aulas gravadas diretamente da sala de aula? Possibilidade de consumo em parte presencial, em parte remoto? A riqueza interativa de uma sala de aula associada às facilidades de entrega de conteúdo extra, via digital? Inserção de metodologias ativas ancoradas em plataformas para ampliar as possibilidades de simulação e reprodução de modelos?

É claro que nosso país possui ainda desafios estruturais para que estas novas ofertas ganhem espaço no mercado (os problemas de acesso e a exclusão digital de camadas menos abastadas da população representam os principais entraves).

Mas, no meu entender, fica muito evidente que os posicionamentos anteriores não terão uma vida muito próspera: o EAD tradicional só vai se sustentar em mercados de baixíssimo custo (para um setor que já brigava por preço, muito antes da pandemia). Isso tornará cada vez mais evidente o trade off entre preço e um processo educacional duvidoso.

Enquanto isso, o ensino presencial precisará garantir experiências definitivamente mais ricas, sólidas e que construam engajamento com os estudantes. Além, é claro, de incorporar o digital. Assim, terá chance de fugir da competição predatória do conteúdo on-line de baixíssimo custo e das novas ofertas estruturadas ao redor de outros modelos de negócios, que nos últimos anos passaram a ocupar as lacunas deixadas pelas instituições tradicionais.

* Artigo originalmente publicado em dezembro de 2020, no portal do Conselho Regional de Administração (CRA-RJ) e atualizado para publicação aqui.

** Gravei um episódio do #talk2biz em janeiro deste ano, onde converso sobre o modelo de sala de aula do futuro com o professor Márcio Gonçalves. Link aqui.

Por Bruno Garcia