BusinessDrops: Protecionismo e guerra no e-commerce nacional

Algumas empresas e associações nacionais declararam guerra ao que eles chamam de “camelódromo virtual”: na realidade, os marketplaces tocados por grupos como Mercado Livre, AliExpress e Shopee, entre outros. Um pedido formal foi encaminhado ao governo pelo grupo de reclamantes, que é liderado pela Havan (na figura do famigerado Luciano Hang) e pela Multilaser.

Outras entidades assinam o manifesto como a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) e a Associação Nacional dos Fabricantes Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).

De acordo com notícia publicada pelo O Globo e repercutida em outros portais, como o Tecnoblog, o pedido teria sido bem recebido, tanto que o Ministério da Economia disse estar preparando uma Medida Provisória sobre a questão. O objetivo seria taxar em no mínimo 80% as vendas feitas dentro destas plataformas. De acordo com a legislação atual, pessoas físicas podem comprar de outras pessoas físicas fora do Brasil sem pagar impostos, caso o valor seja menor do que US$ 50.

Era de se esperar que em algum momento os mecanismos tributários do Estado olhassem com mais atenção para o gigantesco canal de vendas que se formou a partir de marketplaces (e sim, é público e notório que tais canais são usados para a comercialização de produtos que de alguma forma driblam o fisco, com valores sendo declarados abaixo do preço real de compra, ou simplesmente pela incapacidade de nossas entidades verificarem todos os pacotes, já que o volume se tornou absurdo).

A consideração a fazer é que medidas protecionistas devem ser usadas para proteger e ao mesmo tempo fomentar uma indústria nacional forte. Mas este nunca parece ter sido exatamente o caso aqui…

Por estas terras, o protecionismo sempre ficou apenas na sua superficialidade: proteção absoluta para que as “oligarquias” e grupos instalados pudessem manter produtos de qualidade péssima, clonar equipamentos estrangeiros sem o menor constrangimento ou pudor, e fazer de reféns os consumidores, cobrando absurdamente caro por itens sem qualidade.

Logo, embora medidas protecionistas no meu entender sejam importantes e até mesmo fundamentais em alguns momentos, por aqui a história nos mostra que elas nunca impulsionaram a indústria: pelo contrário. Em muitas situações, a tornaram acomodada e leniente. Nossa indústria costuma estar mais preocupada em ganhar competitividade indo a Brasília do que atuando para melhorar suas entregas.

Outro ponto a observar é que será impossível parar daqui para frente este grande fluxo de transações e de itens. O que uma medida como essa (feita às pressas) pode é apenas frear a atuação destes players, mas nem de longe resolve o problema (ou impedirá de fato que estes ou outros grupos ocupem tal lugar), seja oficialmente, seja por meio de canais ilegais.

No mais, o bufão Hang, esta figura caricata e oportunista, das mais deploráveis do nosso cenário atual, pode estar vendo nisso mais uma “conquista” para a sua narrativa de super patriota (que ele adora ostentar de forma burlesca) e para a cruzada da extrema direita contra a China (afinal, a maior parcela dos alvos são players chineses).

O assunto é importante e merece ser discutido, mas há que se desconfiar das reais intenções e da própria efetividade das medidas propostas. Ter uma indústria forte é fundamental para o desenvolvimento de qualquer país. Blindar players mimados que adoram alardear por aí os benefícios do livre mercado apenas quando lhes é conveniente, para que mantenham as suas posições e seus ganhos intactos já é algo totalmente diferente.

  • Jogo Rápido
    1) Xbox supera as vendas do PS5 pela primeira vez:
    para quem já vinha acompanhando o avanço da Microsoft no mercado e suas abordagens estratégicas para tornar o seu ecossistema predominante (como este humilde analista que vos escreve), foi noticiado há algumas semanas pela imprensa internacional. Na Europa, as vendas mensais da linha Xbox Series superaram o PS5, da Sony. Claro que pesam para este resultado os problemas de abastecimento em relação a microchips, o que vem prejudicando em especial a companhia japonesa. Mas não podemos desconsiderar este número como
    também fruto do avanço estratégico sólido da Microsoft. Tem vídeo no nosso canal sobre isso. Você pode ver clicando aqui.

    2) Netflix pretende cobrar extra dos usuários que compartilham a senha: Sim, para aqueles que gostam de compartilhar sua senha com os amigos, a gigante do streaming já está testando uma solução e pretende cobrar pelo compartilhamento. Ainda como recurso beta, o sistema de cobrança será testado inicialmente em alguns países (o Brasil ainda não é um deles). Falamos em colunas passadas sobre a Disney oferecer modalidades de assinatura mais baratas e com a inserção de publicidade no Disney+. Toda essa movimentação pode ser um indicativo de que o modelo de monetização dos serviços de streaming pode passar por um questionamento (interno, por parte das empresas). Veremos o que virá a seguir.

    3) Disney contrata executivo para cuidar da sua divisão de metaverso: já que falamos da Disney, a companhia contratou recentemente um executivo para tocar diretamente uma nova divisão focada no seu metaverso. Seguindo o hype que está instaurado no mercado, será que veremos alguma iniciativa significativa ou só mais espuma? Aliás, pensar no metaverso da Disney só me traz um nome à mente: Disney infinity.

    4) Rússia fica sem Tieta do Agreste: Enquanto o conflito entre Rússia e Ucrânia se mantém, a comunidade internacional amplia a pressão e as sanções de todo tipo. Como falamos na última edição do BusinessDrops, muitas empresas aderiram ao embargo, inclusive uma nacional. Sim, a Globo entrou para o grupo de companhias que suspendeu acordos comerciais com o país de Vladimir Putin após a invasão. Desde o final dos anos 1970, são comercializadas produções audiovisuais, em especial as novelas, que fazem grande sucesso por lá. A primeira produção a cativar o povo russo foi “A escrava Isaura”, de 1976. A entrada nos países europeus ocorreu quando ainda existia a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

    5) Mercado Livre acelera e amplia investimentos no Brasil: A despeito das acusações de “camelódromo virtual” e de portal de contrabando, conforme falamos no início desta edição, o Mercado Livre está acelerando em território brasileiro. A empresa anunciou anunciou um investimento de R$ 17 bilhões ainda este ano com o objetivo de dobrar sua capacidade logística e ampliar a oferta de suas soluções financeiras, o Mercado Pago. O montante é 70% maior do que o investido pela empresa em 2021.

    6) Só para finalizar, mais uma da guerra do e-commerce: outro alvo das acusações de contrabando virtual, o Shopee também acelera a adoção de recursos em nosso território. A empresa liberou recentemente o recurso Shopee Live, funcionalidade de live commerce, em território nacional. As transmissões ao vivo para vendas online estão entre as modalidades que mais cresceram por aqui em 2020. O próprio Youtube estaria preparando também soluções neste sentido. No Shopee, a modalidade responde por 95% dos pedidos, de acordo com números da própria empresa.

    7) E mais uma (prometo!). O iFood que se cuide! Foi anunciado na última segunda, (28 de março) pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, uma plataforma de food service própria com taxa zero para os restaurantes. O app de delivery Valeu promete também melhorar a remuneração dos entregadores, uma das maiores “pedras no sapato” das redes de delivery atuais. A iniciativa é ótima. Mas precisamos ainda entender se a infraestrutura tecnológica do projeto poderá competir com outras gigantes do setor. E se teremos a adesão do público. Afinal, sem ele, nenhuma plataforma digital se sustenta. Boa sorte ao Valeu Delivery

Sobre o BusinessDrops:

O BusinessDrops é uma coluna produzida pelo professor Bruno Garcia com comentários e análises sobre os principais assuntos no mundo dos negócios. Ela é enviada prioritariamente por e-mail e 48 horas depois disponibilizada aqui em nosso blog.

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