BusinessDrops: O Twitter pode se tornar lucrativo?

Elon Musk conseguiu. Após exercer pressão pela mídia e ampliar as críticas à atual administração do Twitter, o fundador da Tesla fechou o acordo de compra da rede social por US$ 44 bilhões. Na última edição do BusinessDrops ponderei sobre as reais intenções do bilionário com a aquisição. Mas a questão mais importante agora que o negócio foi confirmado é: conseguirá Elon Musk tornar o Twitter uma plataforma lucrativa? Ou o homem mais rico do planeta está apenas em mais uma cruzada para alimentar o seu ego (que parece ser maior que sua própria fortuna)?

Analisemos alguns pontos:

– O Twitter enquanto rede social:

Fundado em 2006, a rede social se tornou um fenômeno pelo formato diferenciado e pela agilidade na transmissão de conteúdo, principalmente notícias. Contudo, logo perdeu espaço para outras plataformas que ofereciam um leque maior de possibilidades e ferramentas. Embora seja usado por muita gente influente, se tornou uma rede que atende a perfis mais específicos de público. Logo, seu alcance é bem mais limitado: são pouco mais de 200 milhões de usuários ativos em todo mundo, uma pequena fração de outras plataformas (Facebook e Instagram possuem cerca de 2 bilhões de usuários, cada).

– O Twitter enquanto empresa:

Enquanto organização, o Twitter possui um histórico turbulento. Embora sempre encarado como uma rede social promissora e inovadora, a verdade é que ele deu prejuízo em praticamente todo o seu tempo de existência. Somente por dois anos, 2018 e 2019, a companhia registrou lucro operacional. Como qualquer outra rede social, seu modelo de negócios funciona da forma mais tradicional possível: por meio de anúncios. E como em matéria de volume de usuários, seu público é mais restrito, isso impacta diretamente na sua receita. Curiosamente, seus melhores resultados começaram a surgir ao mesmo tempo em que a plataforma (juntamente com outras redes, como o próprio Facebook) começaram a ser questionadas pela sua postura diante de problemas como fake news, propagação de discurso de ódio etc.

O Twitter, em especial, se tornou um ambiente fértil para a ação das milícias digitais, uso de perfis falsos e bots, propagação de desinformação e manipulação da opinião pública. A empresa tentou tomar providências: além de aumentar suas mecânicas digitais de moderação de conteúdo, estima-se que dos 7.500 funcionários, 20% atuem dedicados a este tipo de controle. O caso mais extremo e emblemático da mudança de postura foi a expulsão definitiva do ex-presidente norte americano Donald Trump, após este ter incentivado a invasão ao capitólio, em janeiro de 2021.

Nas questões gerenciais e internas, o Twitter não parece ter a mais sólida das administrações. Existem críticas em relação à maneira como a empresa vem sendo conduzida. O próprio Musk fez diversos apontamentos, mas óbvio que desacreditar a administração tinha relação direta com o processo de aquisição, tentando convencer tanto acionistas quanto a opinião pública de que ele seria capaz de fazer melhor. Mas as críticas também vieram de outras direções, como de Jack Dorsey, co-fundador e ex-CEO da plataforma. Após o fechamento da negociação, Dorsey mais uma vez se manifestou publicamente a favor de Musk, tratando-o como “a única solução na qual confio”.

– E o lucro, começa quando?

De tudo o que foi dito pelo próprio Elon Musk, o que podemos esperar para o futuro do Twitter? Polêmicas a parte, é impossível negar que o empresário é pouco convencional. Mas poderia fazer algo de fato para atrair mais pessoas para a plataforma? Ou seria capaz de criar outras mecânicas de monetização?

Infelizmente, isso parece pouco provável.

Até agora, a maior preocupação de Musk parece ter relação com sua ideia (bastante distorcida) de liberdade de expressão. O empresário vem se colocando publicamente como um “absolutista da liberdade de expressão”, se manifestou contra as medidas impostas pelo Twitter (inclusive ao ex-presidente Donald Trump) e fala contra qualquer forma de censura. Paradoxalmente, bloqueia pessoas que o confrontam na rede. Em território norte americano, a Tesla enfrenta graves acusações e processos por apologia ao nazismo e ao racismo entre seus funcionários.

Ao que deixa a entender por suas postagens e declarações, Musk culpa as medidas de combate às notícias falsas e desinformação como as causadoras dos péssimos resultados da empresa. E isso por si já é uma tolice e inverdade: o Twitter dá prejuízo desde sempre. A maior regulação que se iniciou nos últimos anos definitivamente não é a responsável pelo microblog nunca ter chegado nem próximo de outras redes, que possuem na casa de bilhões de usuários.

Motivação política

Outra possibilidade ventilada por Musk seria tornar o Twitter novamente uma empresa de capital fechado. Para analistas e especialistas no setor, isso é um claro indicativo que ele pretende “afrouxar” as mecânicas de controle ao mesmo tempo em que se afasta da pressão exercida pela opinião pública. Sem ações cotadas na bolsa, a empresa se torna bem menos suscetível a este tipo de cobrança. Inclusive é pelo Twitter que o bilionário fala com sua base: são quase 90 milhões de seguidores.

Portanto, não temos como dissociar o movimento de aquisição com questões de natureza política. Musk nunca escondeu suas inclinações mais extremas à direita (tanto que a compra do Twitter foi comemorada em todo o mundo por grupos de perfil mais radical, inclusive bolsonaristas no Brasil). Se ele tornará o Twitter mais uma vez “terra de ninguém”, permitindo que grupos voltem a propagar desinformação (antivacinas, teóricos das conspirações satanistas, terraplanistas e outras imbecilidades do gênero) para angariar mais seguidores, ainda não sabemos.

Mas me parece óbvio que existe a intenção de fugir dos holofotes e tentar escapar de qualquer tipo de mecânica de controle (não nos esqueçamos que o próprio bilionário foi notificado por entidades regulatórias norte americanas, já que algumas de suas postagens teriam influenciado na movimentação do valor das ações de sua empresa automotiva, a Tesla, e também na especulação ao redor de criptomoedas).

Não podemos desconsiderar também que Musk possa estar apenas jogando com sua torcida, coisa que ele está acostumado a fazer com certo grau de sucesso.

Na prática…

O mais provável é que Musk encontre um meio termo para evitar que a empresa fique no vermelho. Usaria de suas (agora tradicionais) performances midiáticas para gerar expectativa junto ao público e investidores?

Só para lembrar, a Tesla Motors vendeu 936.172 veículos em 2021. Já a japonesa Toyota vendeu mais de 10 milhões no mesmo período. O valor de mercado da Tesla ultrapassa US$ 1 trilhão. Já o da Toyota é de aproximadamente US$ 250 bilhões. Ou seja, todos sabemos o quanto Musk é bom no quesito “gerar expectativas positivas no mercado”. Essa seria uma possibilidade, mas não se a empresa fechar o seu capital.

Ou talvez ele inove com mais funcionalidades, aproximando a plataforma de seus principais concorrentes, mas sob o risco de perder parte do “charme” e das características que a tornaram o microblog uma rede “diferenciada”. E mesmo isso pode não ser suficiente. A briga neste campo é extremamente agressiva: Facebook, Instagram, TikTok, Linkedin, Youtube (até o Pinterest possui mais usuários que o Twitter).

Por fim, restariam as motivações políticas, com Musk tornando o Twitter seu próprio playground para alavancar candidatos com os quais esteja alinhado (como o próprio Donald Trump). Sob esta perspectiva, mesmo alguém com este patrimônio estaria disposto a bancar uma operação deficitária? Por quanto tempo?

No final das contas, talvez Musk só queira o que todo grande magnata quer: ter uma grande plataforma de mídia para chamar de sua. A relação que ele terá com tal plataforma talvez seja um pouco mais extravagante, o que não seria exatamente uma surpresa para ninguém. Apesar dos 50 anos, o bilionário gosta de se comportar como um millennial clássico: mimado, arrogante e sem limites…

– Jogo Rápido

1) Rede criada por Donald Trump tem alta de downloads: Desde que foi banido das redes, o ex-presidente Donald Trump tratou de criar a sua própria plataforma, a Truth Social (nome bizarro, vindo de um dos políticos que mais apoiou movimentos de teorias da conspiração no últimos anos, como o QAnon). Até então, a rede era considerada um verdadeiro desastre, com poucos usuários e problemas sistêmicos. Contudo, após a aquisição do Twitter por Elon Musk, o aplicativo registrou recorde de downloads na App Store (a Truth Social ainda não é disponibilizada no sistema Android). Muito provavelmente, isso se deve ao fato de grande parte do público ter ouvido falar pela primeira sobre a plataforma somente agora, a partir das postagens de Musk.

Sobre o BusinessDrops:

O BusinessDrops é uma coluna produzida pelo professor Bruno Garcia com comentários e análises sobre os principais assuntos no mundo dos negócios. Ela é enviada prioritariamente por e-mail e 48 horas depois disponibilizada aqui em nosso blog.

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